Apocalípticos e integrados nos tempos de coronavírus

17 de Março de 2020

Por Giovanni Ramos*

Começo esta crónica com um pedido de perdão ao escritor e investigador Umberto Eco, pois uma expressão sua (título de um livro) utilizada nas Teorias da Comunicação, é mais uma vez roubada e usada em outro contexto.

Uns dias antes de o coronavírus tornar-se, de facto, uma pandemia mundial, eu vinha acompanhando o comportamento do público nas redes sociais, nomeadamente os comentadores de páginas de jornais no Facebook e os grupos de Whatsapp. Sei que muita gente não têm o costume de participar desta rede social. Sorte deles! Não há nada pior para propagar a desinformação.

Observar comentadores de páginas de jornais é um exercício um tanto masoquista. Tenho vergonha alheia quando vejo jornais portugueses a noticiar a política brasileira e vejo alguns fanáticos, que nem aqui moram, responder com insultos e teorias da conspiração. Não são verdadeiros leitores dos jornais que fazem essas barbaridades e sim militantes fanáticos.

A pandemia do coronavírus tomou conta do noticiário e a preocupação com a propagação é de todos. Particularmente, gosto muito de ver que aqui em Portugal, a população está a cobrar medidas mais assertivas do governo. É um ótimo sinal. Tem muita gente nas redes sociais a colaborar. Mas a crónica não é sobre eles e sim sobre os problemáticos.

IMAGEM: Markus Spiske/Unsplash

Classifico os propagadores de desinformação nas redes sociais em dois grupos: os apocalípticos e os integrados. São ambos muito fáceis de reconhecer e ambos atrapalham a comunicação em tempos de crise.

Os apocalípticos duvidam de todos os dados divulgados. Acreditam que há muito mais mortes e infectados do que os números que a DGS divulga todos os dias. Para os apocalípticos, o governo tem interesse em esconde os problemas (queria saber qual a vantagem nisso). São esses que promovem o pânico na população espalhando desinformação, piorando a situação. De certa forma, ajudam a causar as filas intermináveis nos supermercados e a consequente falta de produtos. Todos os memes sobre papel higiênico explicam um pouco a ação dos apocalípticos.

Do outro lado, temos os integrados. Para esses, os media exageram na crise e são os responsáveis pelo pânico. Eles acreditam que o coronavírus não passa de uma gripe e que deve haver alguma teoria da conspiração envolvendo a China por trás de tudo. Se os apocalípticos estão nos supermercados a exagerar na compra de produtos, os integrados são aqueles que aproveitaram a suspensão das aulas para irem para festas, praia.

Talvez, o ideal nesses casos seja a moderação: tomar todas as medidas de prevenção, ficar em casa o máximo possível, mas sem criar pânico. A situação é difícil, mas possível de combater. E esperamos que todas as medidas que estão a ser anunciadas no mundo, quanto mais rápido forem aplicadas, mais rápido deverá ser o combate à pandemia.

Devemos sim, combater os apocalípticos e integrados nos nossos grupos de Facebook, Whatsapp, ente amigos e familiares. O extremismo, seja para qual lado for, é mal. Precisamos da seriedade e racionalidade de todos, principalmente das autoridades. No Brasil, o presidente dá pistas de ser um integrado, desdenha da pandemia e saiu cumprimentando seguidores quando um primeiro teste para o coronavírus havia dado positivo. Não precisamos desse tipo de comportamentos por cá.

*O autor é investigador de media regionais, consultor de comunicação digital e atua no jornalismo de 2005.