Arquivo Negro: uma noite de dança no teatro

Apresentações seguem até o dia 12 de outubro Um pequeno grupo se aproxima de uma

Arquivo Negro: uma noite de dança no teatro
Companhia brasileira se apresenta na Covilhã

Apresentações seguem até o dia 12 de outubro

Um pequeno grupo se aproxima de uma mesa, com passos incertos. “Sim, sim, é aqui mesmo”, responde uma senhora para uma pergunta não dita. A senhora é Carmo Teixeira, produtora cultural da ASTA. Com um sorriso, ela recepciona o público que foi conferir, no último dia 26, a peça Arquivo Negro: passos largos em caminhos estreitos. “É muito interessante acompanhar a expectativa do público, esse misto de ansiedade para assistir à peça”, conta Carmo.

O misto de ansiedade citado por Carmo se reflete nos olhares que os recém-chegados lançam para a porta do Auditório das Sessões Solenes, localizado na Universidade da Beira Interior. Pouco depois das 21h40, Carmo se aproxima da entrada e convida os presentes para desligarem os telemóveis e entrarem no auditório.

O teatro está tomado por fumaça. Sons de conversa indistinguíveis embalam a entrada do público, que acaba por ocupar a parte central do auditório. No palco, o grupo de seis artistas se movimenta ritmadamente na sombra, com a marcação da batida dos pés.

É feita a troca de luz da plateia para os artistas. Entre os movimentos, a história começa a se desenvolver. O espetáculo é livremente inspirado em histórias de personalidades negras que, mesmo vivendo situações de extrema adversidade devido aos estigmas gerados pela escravização de negros e pelo racismo histórico do território brasileiro, destacaram-se e influenciaram a história e a cultura nacionais.

A performance, realizada pela Companhia Pé no Mundo, de São Paulo, Brasil, faz parte da 10ª edição do Contradança. Segundo Carmo, todos os grupos que participam do evento são profissionais. “É um festival que tem um nicho. O evento é pensado de um ano para o outro”, revela Carmo. Essa antecedência na organização se reflete na qualidade da apresentação.

No palco, a palavra é silenciada e a voz é expressada através de gestos. Na plateia, o olhar atento de quem não quer perder nenhum detalhe. Os artistas, que até então não tinham expressado as suas vozes, passam então a se manifestar oralmente, todos ao mesmo tempo, em uma confusão incompreensível de vozes que expressam raiva. Os gritos dos artistas tomam conta do auditório, seguidos apenas pelo som da respiração dos personagens.

A música então se transforma e a dança é embalada por uma narrativa. “Eu não sou apenas o que você vê. Tenho história”, reflete uma parte da canção. Entre as palavras, uma mensagem para o público: “nós, negros, não somos descendentes de escravos, mas sim descendentes de seres humanos africanos que foram tornados escravos, ou seja, escravizados. Como filhos resultados de uma diáspora forçada, nós, seus descentes fomos trazidos ao mundo com o direito de sermos autores e protagonistas de nossa própria história, que, desde África e também nas Américas e no Brasil, é regada de beleza, inteligência, estratégia, criatividade e grandes feitos. Assim, seguimos a passos largos em caminhos estreitos. Passos que vêm de longe”.

Ao final, muitas palmas, mesmo após os atores saírem do palco. Algumas pessoas da plateia se levantam para aplaudir. Os artistas retornam com mensagens escritas, a simbolizar um protesto por mais liberdade. O espetáculo chega ao fim, mas as palmas continuam. Fica, no entanto, a mensagem transmitida.

laura