Crónica de despedida

28 de Janeiro de 2020

Ou depoimento melancólico de quem não sabe se volta mais à Covilhã

Por Raul Ramalho*

Escrevo isto no comboio que leva-me da Covilhã para não sei mais quando voltar. A temperatura marca sete graus e está nublado, quase chovendo. Não há cenário mais simbólico para minha despedida, espero não definitiva, das montanhas. Um quadro pintado de cinza evidencia a melancolia deste dia.

Impressiona notar, refletindo agora, que este panorama marcou minhas estadias na Beira Interior. Não vivi somente dias felizes, mas, paradoxalmente, o conjunto de experiências positivas e negativas construíram minha forte ligação com estas terras de Portugal. Estive na Covilhã durante nove meses não consecutivos e apeguei-me de tal maneira que parto com o coração apertado, cheio de nostalgia.

Ou seja, esta crônica (ou seja lá o que for) não é para enumerar minhas alegrias por aqui. São sentimentos contraditórios (os quais não sou capaz de descrever a contento) que marcam minha relação com a Covilhã. Nunca foi perfeito, porém uma forte afetividade cresceu em mim.

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Estive na cidade para cursar, na Universidade da Beira Interior, o doutoramento em Ciências da Comunicação como parte do acordo de cotutela com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no Brasil, à qual sou originalmente filiado.

Foram tempos de muito aprendizado. Não falo da coisa oficial, curricular académica. Como doutorando e homem casado, minha perspectiva é outra. Tinha muitas responsabilidades e não podia entregar-me à boemia numa proporção que seria possível, por exemplo, se eu estivesse na graduação ou no mestrado. Portanto, refiro-me a tudo que vivi nestes períodos: solidão, dificuldade em adaptar-me ao frio, quase depressão por não conseguir avançar com a tese e não ver o sol, superar tudo e seguir firmemente, conhecer novas pessoas e construir amizades.

É que aos poucos fui desbravando esta cidade pequenina e acolhedora, que abriga uma universidade surpreendentemente cosmopolita. Assim, fui conhecendo cada cantinho deste lugar. Jardins, monumentos históricos, bares, restaurantes, vielas e ruelas que cortam o centro, convergindo no pelourinho. Caminhar sentindo o ar puro, o vento frio no rosto, lutando com as ladeiras que caracterizam a formação urbana do município, em meio à tranquilidade, depois sentar num café e relaxar, para mim, era uma experiência única.

Estive na Covilhã em dois períodos distintos: de 2018 a 2019 morei na cidade. Neste período atual, de 2019 a 2020, vivo em Lisboa e subia a serra para participar das aulas. Vinha sempre neste mesmo comboio que agora leva-me de vez. A cada chegada a sensação de familiaridade era a mesma, principalmente quando a Serra da Estrela começava a dominar a paisagem. Vinha-me sempre um pensamento, considerado estranho (e até mesmo inapropriado) logo após ser pensado: Esta é minha cidade!

O que posso dizer? Foi pouco tempo, é verdade. Mas parece que o feitiço de que me falaram é real. Quem vive nas montanhas não consegue sair sem tristeza. Não sei se volto, mas pretendo retornar. Motivos não faltam: eventos académicos, redes de pesquisa e, claro, amizades. Espero que oportunidades apareçam. Quem sabe para que caminhos a vida nos leva?

Agora o comboio se distancia, a serra vai desaparecendo da vista. Na medida em que fico mais longe, a tristeza aumenta. A paisagem se esvai, mas, tenho certeza, as memórias e afetos construídos na Covilhã não desaparecerão, serão para a vida…

*O autor é jornalista brasileiro e doutorando em Ciências da Comunicação