Desconfina, pero no mucho

13 de Maio de 2020

Por Giovanni Ramos

Era o primeiro dia sem o Estado de Emergência. Um dia de liberdade condicional, como disse um colega meu. Sol, temperatura boa e algumas pessoas a caminhar no Jardim Público. Claro! No primeiro dia, seria normal que as pessoas procurassem esses espaços. Amigos a conversar, casais a namorar, cães a brincar. Até diria que parecia um domingo normal de primavera no jardim não fosse pelo facto de que o local estaria completamente lotado em um dia dito normal.

Aí vem o segundo dia. Dia útil e comércio aberto. Enfim, o desconfinamento começaria em Portugal. Lojas abertas, pessoas a caminhar, olhar preços, fazer algumas compras. Tudo isso eu vi, mas com uma sensação de estarmos no mês de agosto sem aquele calor infernal. Ainda tínhamos muito pouca gente nas ruas.

Aquele povo do café sempre estava lá. Agora na versão pandemia, ocupando espaços nas calçadas em frente aos cafés que só vendem take away. A roda de cafés, cigarros e conversas é a mesma de outros dias, só que em pé e sem o debate sobre os jogos de domingo no futebol. Mas isso é assunto para outra crónica.

Era óbvio e correto que o desconfinamento ocorresse de forma faseada, gradual. Se todos forem às ruas agora, a segunda onda virá antes do que a gente pensa e poderá ser ainda pior. Tudo certo no Centro, no Jardim Público, uma sensação até boa de que estamos a evoluir, que logo voltaremos ao normal.

Uma semana depois e vou à universidade. Então, o choque de realidade. Não saímos da quarentena ainda. Estamos a abrir as atividades económicas para que elas não quebrem de vez, mas não dá para chamarmos ainda de “novo normal”.

O silêncio na Bibiloteca é lei, mas ver as salas de estudo vazias, com apenas uma cadeira por mesa, causou uma sensação estranha. Aplaudo a UBI por medir a temperatura de quem entra nos polos, mas preciso admitir que foi aquele gosto ruim da realidade a ser jogada na minha cara. A crise ainda não passou.

O reitor da UBI mandou uma carta aos alunos hoje. Contou sobre um silêncio não auditivo, mas visual na Bibiloteca e convidou os estudantes a voltarem a frequentar o espaço, mesmo que solitários, mascarados e com todos os cuidados que a Covid-19 exige.

Entendo o reitor. É realmente estranho o espaço mais agravável da universidade estar assim… deserto. Nem mesmo no mês de agosto fica assim. Tenho saudades até mesmo das bagunças que muitos alunos faziam na sala de estudos, que atrapalhavam minhas leituras até que o guarda vinha para chamar a atenção dos bagunceiros.

Mas a verdade é que estamos a desconfinar, mas não muito. O percurso até o novo normal ainda é longo….