Desinformação: você se preocupa com o que lê na internet?

Eventos da UBI propõem debate sobre ciberjornalismo e financiamento

Desinformação: você se preocupa com o que lê na internet?

Eventos da UBI propõem debate sobre ciberjornalismo e financiamento

O cenário é, no mínimo, desafiador. Os avanços tecnológicos têm forçado os media a adaptarem-se e, de certo modo, a (re)inventarem-se. Diante de salas de imprensa cada vez menores em estrutura e número de profissionais, de um jornalismo cada vez mais veloz e multitarefa, e de recursos financeiros cada vez mais escassos, instituições, estudantes, professores e agentes da comunicação precisam reflectir sobre o papel e o lugar do jornalismo e a qualidade na informação. O assunto torna-se especialmente importante no atual contexto de desinformação que afeta a sociedade como um todo.

Este é o debate que a Universidade da Beira Interior pretende levantar nos próximos dois dias por meio do 2º Encontro de Ciberjornalismo Académico, a decorrer nesta quarta-feira (19), e do Fórum “Financiamento do jornalismo e dos media regionais, comunitários e de proximidade”, programado para a quinta-feira (20). Os dois eventos são gratuitos e direcionados à todos os interessados em discutir o futuro do jornalismo.

O Viva Covilhã antecipa a discussão dos temas de interessa geral através da entrevista ao investigador do Re/media.Lab – Laboratório e Incubadora de Media Regionais, Pedro Jerónimo.

Programação do 2º Encontro de Ciberjornalismo Académico

Programação do Fórum “Financiamento do jornalismo e dos media regionais, comunitários e de proximidade

“O ciberespaço abriu um mundo de oportunidades aos jornalistas”. FOTO: Arquivo pessoal.

Curioso dos media e do jornalismo de proximidade, diz ser um “engenheiro civil que ficou pelo caminho”. Abandou essa área na recta final do curso superior, porque se apaixonou pelo jornalismo. E foi também por via dessa mudança que viria a apaixonar-se novamente: mudou de curso e foi lá que conheceu a sua mulher.

Casado e com dois filhos, 39 anos, mudou-se há um ano de Leiria para a Covilhã. Foi jornalista durante cerca de dez anos, licenciou-se em Comunicação Social e Educação Multimédia (Politécnico de Leiria) e doutorou-se em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais (Universidade do Porto e Universidade de Aveiro), com uma tese relaciona com os media regionais em contexto digital. “Ciberjornalismo de proximidade: redações, jornalista e notícias online” (2015) e Media e jornalismo de proximidade na era digital” (2017) são os livros que publicou, estando já um terceiro “quase a sair do forno”.

Recentemente, o Re/media.Lab fez um levantamento sobre a característica dos media regionais, a partir de dados da ERC. Quantos estão presentes no meio digital e quantos existem apenas no meio digital?

O que fizemos foi olhar para a base de dados da Entidade Reguladora para a Comunicação social (ERC), que é pública, e tentar perceber o que nos dizia em relação aos media regionais. Verificámos que, a 6 de janeiro, estavam registados um total de 1.727 órgãos de comunicação social, dos quais 750 eram de âmbito regional. Estamos a falar de 43,4%, o que reforça a importância deste sub-sector dos media.

Respondendo à questão, meios exclusivamente digitais temos 21%. É um valor que pode não parecer alto, mas tem estado a crescer. Estamos a falar de meios que só se publicam nesse suporte, isto é, só a partir de plataformas com acesso à internet é que podem ser consultados. Já os meios que se publicam simultaneamente no velho e “novo” suportes, isto é, papel e online, temos 55%. Embora este número não nos diga que tipo de publicação fazem e com que regularidade, no mínimo teremos que registar que, globalmente, os media regionais estão muito presentes no ambiente digital. Depois temos 24% que são as excepções, isto é, aqueles que apenas se publicam em papel e não estão online.    

Os dados demonstram haver uma ampliação do jornalismo no ciberespaço ou, pelo menos, o crescimento da consciência por parte dos jornais da importância dessa presença?

Sim. Os jornalistas dos media regionais – mais do que os próprios responsáveis – têm noção de que se abriu um mundo de oportunidades. Sobretudo com o aparecimento da Internet. Ela não só facilitou muito as suas rotinas de produção, como pesquisar informação e contactar fontes, como também trouxe outras possibilidades de alcance do seu trabalho, isto é, a partir de qualquer parte do mundo é possível saber-se o que se passa na Covilhã, por exemplo, desde que isso esteja publicado online.

Investir no digital é apenas estar presente nesse ambiente através de uma página online?

Não é, embora reconheça que entre alguns media de proximidade isso é uma realidade. O que quero dizer é que temos meios a publicar regularmente e até a explorar o ambiente digital, nomeadamente por via da hipertextualidade ou multimedialidade, mas também outros que não façam mais do que estar. Aquilo a que Carlos Camponez [professor e investigador da Universidade de Coimbra] se referiu –  num evento realizado em 2012 na Universidade da Beira Interior – como “jornalismo de presença”. Os meios simplesmente estão ali, publicando a primeira página da edição em papel e pouco mais. É o que fazem por exemplo os jornais do grupo Diário de Coimbra – o próprio, Diário de Aveiro, Diário de Leiria e Diário de Viseu. É uma estratégia assumida, por existirem primeiramente em papel e ser essa a principal via de financiamento (vendas, assinaturas e publicidade).

Neste cenário, quais são, na sua opinião, os principais desafios de meios como o Viva Covilhã, que nasceram no ciberespaço e tentam criar uma cultura digital numa região ainda pouco desenvolvida nesse aspecto?

Subsistência e sobrevivência. Sou suspeito para falar sobre um projecto que vi nascer e que acarinhei desde o início, por via do Re/media.Lab. Mas à parte disso, observo que impacto na cidade e região já teve. Isso tem a ver com o facto de um grupo de pessoas ter identificado uma necessidade no cenário mediático da cidade, isto é, não havia um projecto online com publicação tão regular e pensado numa lógica multimédia. Atenção que não estou a ignorar o Urbi et Orbi, da Universidade da Beira Interior, que está a comemorar 20 anos e que é o cibermedio académico há mais tempo em actividade em Portugal. Contudo, tal como a RUBI e a TUBI, é um projecto específico, não profissional, que existe muito ao ritmo do ano lectivo e que vê as suas equipas renovarem-se todos os anos. Se o Viva conseguir financiar-se e assim subsistir, as melhorias e expansão vêm por acréscimo. Haja vontade. 

Ciberjornalismo e financiamento dos media são temas que tocam a todos os que atuam ou pretendem atuar no jornalismo na atualidade. Qual é a importância em manter a discussão desses assuntos tendo em vista o OE para 2021?

A questão é mesmo essa: manter o debate. O que vamos fazer na próxima quinta-feira, dia 20, com o Fórum “Financiamento do jornalismo e dos media regionais, comunitários e de proximidade”, é prosseguir com o que foi iniciado sobretudo no final do ano passado. Nos últimos meses de 2019, tivemos várias intervenções públicas do Presidente da República, que falou num estado de emergência. De seguida foram as associações de sector e o Sindicato dos Jornalistas e fazerem eco dessas preocupações, pois bem sabem o que se passa nos jornais, rádios e com os jornalistas deste país. Embora o diagnóstico já tivesse sido feito e várias vezes, nomeadamente por parte destas entidades, a verdade é que se precipitaram uma série de iniciativas, por via da aproximação da discussão em torno do Orçamento de Estado para 2020. Entretanto, ele já foi discutido e aprovado, contemplando três medidas para os media. Aqui tenho que destacar uma delas: a recuperação e revitalização do Portal da Imprensa Regional. Das 15 propostas que apresentámos publicamente e que enviámos depois aos decisores, esta foi apresentada pelo PAN [Pessoas–Animais–Natureza] na Assembleia da República e aprovada por outros partidos políticos. Claro que no Re/media.Lab nos regozijamos por perceber que o que fazemos tem impacto. O que não é nada de mais, pois deve ser precisamente esse o papel da Universidade, isto é, fazer o que vulgarmente se designa por transferência de conhecimento. Temos um projecto vocacionado para os media regionais, que pensa, que experimenta, e há que devolver isso há sociedade, pois é financiado por dinheiros públicos.

A realização do Fórum vem precisamente na lista disto. Embora o OE 2020 esteja aprovado, há todo um ano para prosseguir com o diálogo, com estudos, de modo a consciencializar os partidos e os deputados que vão votar o próximo OE para a necessidade de aprovação das medidas que forem apresentadas no final deste ano. Até lá, há que a sustentar muito bem. As próprias associações e o Sindicato dos Jornalistas estão unidas nesse objectivo. Acrescentaria que será decisivo, sobretudo porque 2021 é ano de eleições para o poder local. Mais do que nunca, por estarmos a viver um período desinformação crescente, é necessário um jornalismo forte e independente, nomeadamente em contextos de proximidade.

O jornalismo tradicional tem enfrentado enormes desafios, ele ainda pode ajudar os leitores/utilizadores da internet a identificar um conteúdo de desinformação? Como?

Pode. Diria que nunca o jornalismo e os jornalistas foram tão necessários. Isto pensando na sua missão tradicional, de vigilantes, de escrutinadores dos poderes instituídos. A era digital é desafiadora, pois fez com que o leitor passasse a ser também produtor. Profissional e amadores publicam a qualquer hora, em qualquer lugar. Há uma imensidão de informação a circular a cada instante nas redes sociais, etc. Muita é verdade, mas muita outra falsa e falseada. Falseada porque é construída de forma deliberada para enganar. E já estamos na fase das deepfake, isto é, a manipulação subtil e impercetível de vídeos e até de sons. Aquela máxima do “ver para crer”, já só é aceitável se estivemos lá, in loco. E mesmo assim, vivemos tempos complexos e até perigosos porque a informação é um bem com cada vez mais poder e com a capacidade de construir ou destruir. A primeira impressão só ocorre uma vez e pode não corresponder à verdade. A solução passa por todos, pela sociedade como um todo. Penso que não há outra forma, a não ser a de assumirmos a literacia mediática e digital como um processo contínuo e para toda a vida. O jornalismo e os jornalistas são importantes no processo, mas não são os únicos. Só numa acção colaborativa e construtiva é que será possível combater eficazmente esse flagelo.

A Universidade da Beira Interior está preocupada com esse debate?

Está! Não só preocupada, como comprometida. Recentemente a Universidade da Beira Interior (UBI) assinou um protocolo com a Associação Portuguesa de Imprensa, por via do programa Media Veritas, precisamente que procura combater a desinformação e promover a literacia mediática. Com isto, a UBI passou a ser uma “Universidade Media Veritas”, isto é, juntamente com a Universidade do Algarve são as únicas instituições do ensino superior em Portugal a assumir o compromisso de serem embaixadoras e promotoras da verdade na informação veiculada pelos media. No Re/media.Lab – principal interface deste protocolo na UBI – temos reflectido sobre o assunto e estamos até a abrir ou a suscitar um novo sub-campo de investigação, dentro do estudos sobre os efeitos mediáticos. Falo dos estudos em desinformação que está a mobilizar já uma série de iniciativas, a anunciar oportunamente.  


Aline Grupillo

Jornalista com 20 anos de experiência em jornalismo televisivo no Brasil. E-mail: jornalismo@redevivacidade.com