Do Alentejo à Covilhã…pensamentos…

15 de Outubro de 2019

Por Estefânia Barroso*

A minha vida (sobretudo a profissional) tem-me obrigado a mudar imensas vezes de casa, qual caracol com a casa às costas, vivendo por períodos, mais ou menos longos, em várias cidades (ou até vilas) do país. Assim, num rápido, relembro que já vivi em Coimbra onde estudei, trabalhei e vivi alguns dos melhores e mais marcantes tempos da minha vida. Trabalhei, ainda, na Figueira da Foz, em Aguiar da Beira, em Coja (perto de Arganil), em Estremoz, no Entroncamento, em Campo Maior, em Albufeira, Santarém, Tomar, Portalegre, em Avis e Gavião e, ultimamente, estive outra vez em Portalegre (e, tenho a certeza que estarei a esquecer alguma escola e alguma cidade!).

FOTO: Patrícia Cunha/divulgação

 Sim, é um facto que isto poderia ser visto por um prisma negativo mas isso não faz parte da minha forma de ser. A verdade é que, passado um período de adaptação – que cada vez mais é menor com o decorrer dos anos – passo a sentir aqueles locais como um pouco meus. Por isso costumo dizer que sempre que acaba um ano letivo e volto para casa, um pouquinho do meu coração fica nos locais onde vivi, nos locais que visitei e com as pessoas que conheci. Por isso deverei considerar-me uma sortuda por ter um coração tão grande!

Contudo, há uma dessas zonas que tem um cantinho cada vez maior no meu coração. A razão mais óbvia será porque já vivi em várias cidades dessa região. Efetivamente, a primeira vez que trabalhei no Alentejo foi em Estremoz (por uns 4 anos), tendo voltado mais tarde para trabalhar em Campo Maior, uns anos depois, em Portalegre e, ultimamente, em Avis e Gavião, tendo voltado, o ano letivo passado, para Portalegre. Mas, sinto-me tentada a dizer que não será só isso. Existe uma ligação entre mim e o Alentejo que não será fácil de entender mas que se sente. Apesar de concorrer, nos concursos de professores, a boa parte do país, a verdade é que a sorte tem-me encaminhado mais vezes para esta zona. E a verdade é que fico feliz quando isso acontece. Se acreditasse em outras vidas diria, com toda a certeza, que noutra vida terei sido alentejana. As razões são várias! Por um lado, identifico-me com as pessoas. Algumas das minhas grandes amizades foram feitas aí – e não tenho dúvidas que irão perdurar. Por outro lado, adoro a sua gastronomia: as migas, as açordas, as sopas de tomate, as sopas de cação… tudo é maravilhoso! E a paisagem?! A paisagem é para lá de fabulosa quando a primavera aparece. Muitas vezes essa vista obriga-nos a parar o carro ou a abrandar o passo para a apreciar com todo o tempo que ela nos merece. Não é uma imagem que se limita a ser bela na primavera. Ela continua a ser maravilhosa no verão e até no outono. Aquelas planícies a perder de vista tingidas em vários tons de amarelo são fantásticas. O Alentejo é lindo e sinto-me cada vez mais em casa quando por lá estou, seja no Alto Alentejo, seja num Alentejo Central, como por exemplo, Évora, onde me sinto em família e entre amigos. Se tivesse que escolher um outro local que não a minha Covilhã para viver, sem dúvida que essa zona seria a escolhida.

Mas…e há sempre um más…assumo que nada supera a minha cidade. Aquele sentimento que se tem, quando se acaba de atravessar os túneis da Gardunha e a paisagem que nos surge pela frente é a da minha cidade neve, é inexplicável. Penso que não serei a única a ter aquele sentimento aconchegante, quentinho, quando sai do túnel, que é o de sentir que a viagem está a terminar e que se está em casa. É verdade que ainda falta uma vintena de quilómetros para chegar mas é naquela saída, com a visão lá no alto da minha “cidade luz” que sentimos que chegamos a casa. E é nesse momento que percebo que, por melhor que me sinta no Alentejo, por mais que sinta que existe uma ligação, no mínimo estranha, com aquela região (pontuada imensas vezes por sensações de “déjà-vu”) a minha casa, o local onde melhor me sinto, nunca deixará de ser aqui o meu cantinho da Covilhã. Sempre que aqui chego compreendo que preciso da minha Cidade Luz (sim, a cidade luz é Paris mas para mim a Covilhã é “A minha cidade luz!”) para respirar fundo, a plenos pulmões, largar todas aquelas coisas que se foram acumulando nos ombros e no peito e recuperar forças. Não nasci aqui. Nem os meus pais nasceram cá, estando as suas raízes ligadas a aldeias perto de Castelo Branco. Portanto, não posso dizer que as minhas raízes sejam covilhanenses. Contudo, vivo na Covilhã há muitos anos. E portanto, considero-me covilhanense de alma e coração. Adoro a cidade em si. A paisagem é completamente diferente da paisagem alentejana mas é igualmente maravilhosa e…avassaladora! Muita da minha história está gravada nas ruas da Covilhã e por isso tenho um sentimento de pertença. Enche-me de orgulho ouvir alguém falar bem da minha cidade, ouvir dizer que a visitou e que gostou desta ou daquela paisagem, desta ou daquela pintura de rua, que gostou do Pelourinho e que apreciou as nossas bolachas de cerveja.

Se tivesse que escolher um outro local para viver, não tenho dúvidas que esse local estaria situado depois da passagem da Barragem do Fratel. Aí se iniciam as terras de “além Tejo” e é verdade que sinto uma surpreendente ligação a essas terras. Nutro uma simpatia pelo Alentejo única. Gosto das suas terras e das suas gentes. Mas, a verdade é que só na minha cidade neve é que me sinto completa. Apenas na minha cidade luz sinto que posso sentar e descansar…e apreciar o dia a terminar. É aqui que alma e coração encontram a sua paz.

*Estefânia Barroso é professora, cronista e contista nas horas vagas.
Gere o blog “Steff’s World – a Soma dos Dias”

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