Emigrar e libertar-se

18 de Fevereiro de 2020

Por Isabella Gonçalves*

Covilhã e Portugal, como um todo, recebem todo ano um fluxo imigratório diverso, proveniente não somente de países da União Europeia, mas também de outros irmãos falantes da Língua Portuguesa. Pode-se achar, à primeira vista, que o imigrante deseja apenas melhores condições de vida. Não vamos negar, as possibilidades nos atraem sim e alimentam sonhos. Mas o que dá o tom, e o que faz o desejo sair, enfim, do papel, é a possibilidade de liberdade.

Emigrar é um nascer de novo. É sair de si mesmo. É desconhecer-se para, enfim, poder se (re)conhecer. É abandonar tudo o que é conforto. É dizer adeus, não sabendo ao certo quando haverá volta. O imigrante se entrega ao estrangeiro, sem ter a menor certeza se expectativas serão alcançadas. Constrói novos laços e uma outra família, composta por amigos que se tornam, enfim, mais próximos do que alguns parentes de sangue. Estes últimos deixam de lhe conhecer, deixam de saber, ao certo, o que vive naquele outro lugar, naquela realidade distinta. Eles podem até tentar entender o que se passa, mas não conseguem. Falta-lhes experiência.

De repente, abrem-se dois mundos: a origem e o destino. Em cada um deles, uma vida distinta. O imigrante se vê, assim, para sempre dividido. Sofre uma confusão eterna acerca da própria identidade. E mesmo que volte, aquela vivência do outro lado do oceano será para sempre marca, e a divisão permanecerá, independentemente do retorno. Nesse novo mundo, ele se reinventa, descobre-se um outro e, diante desse eu distinto, também se surpreende, ao mesmo tempo em que cria estranhamento naqueles que conheceram seu antigo eu.

Para encontrar familiaridade, o imigrante consegue conforto em seu igual, naquele que pode lhe entender por inteiro. Talvez seja por isso que sejam formados guetos. Tudo é novo. Aventura constante daquele que descobre todo dia um novo capítulo e se vê reescrevendo a história. Muitos se refugiam entre amigos do mesmo país, talvez na tentativa de encontrar uma âncora. Outros já conseguem se misturar mais. Mas em menor ou maior grau, todos passam pela mesma realidade, problemas, angústias e expectativas.

FOTO: Arquivo Viva Covilhã

O imigrante tem coragem. De forma injusta, muitas vezes a mídia lhe retrata enquanto ameaça ou enquanto sinônimo de preguiça. Os veículos midiáticos e, muitas vezes, até mesmo lideranças políticas, traçam uma linha imaginária entre vocês (cidadãos) e nós (imigrantes). Mas essa divisão só constrói muros. Só cria, na realidade, uma cultura de medo. Porque tal como vocês, somos humanos. Tal como vocês, temos uma história, família e uma mala repleta de subjetividades.

O imigrante é corajoso, porque foi um dos poucos que se entregou ao sonho. É natural do humano sonhar. Mas difícil mesmo é desistir de uma outra vida para começar uma nova. Requer vontade de viver, um pouco de loucura e um bocado de poesia. Para sair de seu país, abandona emprego, vende carro, casa, móveis, enfim, tudo o que é pertence para juntar dinheiro. Pega um voo e, em muitos casos, não leva mais que uma mala. Descobre, então, que não precisa de muito para viver. Talvez, para diminuir um pouco a cultura de consumo de hoje, seria bom mesmo que fôssemos todos nômades.

Mas nesse novo país, o imigrante pode ser livre. Vive, enfim, tudo aquilo que outrora sonhou. Tal como um pássaro, abre asas e explora, então, o céu português, mas também se entrega, ao conhecer um novo continente. E nesse se entregar, pode ser novo e, mais do que tudo, pode ser ele, porque nem sempre podemos ser nós mesmos em nossa terra de origem.

* Artigo enviado pela leitora Isabella Gonçalves, estudante de doutoramento em Ciências da Comunicação na Universidade da Beira Interior. Envie sua cronica também: escreva para web@redevivacidade.com