Entrevista: “estou a viver no século XVI há muito tempo”

Covilhanense João Morgado fala sobre seus romances históricos Escritor e consultor de marketing político, o

Entrevista: “estou a viver no século XVI há muito tempo”
FOTO: Giovanni Ramos/Viva Covilhã

Covilhanense João Morgado fala sobre seus romances históricos

Escritor e consultor de marketing político, o covilhanense João Morgado tem ganhado espaço na literatura portuguesa com a História. Recentemente, o escritor publicou três romances sobre os grandes navegadores, o último sobre Fernão de Magalhães.

Recém premiado com o Prémio Ferreira de Castro de Ficção Narrativa 2019, com o livro “Livrai-me do Mal”, João Morgado fez uma sessão de autógrafos na livraria Bertrand. O Viva Covilhã esteve lá para uma entrevista com o escritor.

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Viva Covilhã: O senhor já atuou como jornalista e hoje faz consultoria política. De onde vem o interesse pelos romances históricos?

João Morgado: Este percurso tem algo em comum que é a palavra. O meu gosto pela palavra. Comecei a escrever ficção muito cedo, depois fui jornalista por muitos anos. O marketing político também é a arte da palavra e, portanto, a palavra é o elo que une todas estas atividades.

Eu tive um gosto muito grande pela história. Eu sempre dizia que quando meus colegas colecionavam cromos de jogadores de futebol, eu ainda tenho uma coleção em casa com figuras históricas. Deste muito novo tenho interesse pela história e pelas pessoas que marcaram a história de Portugal.

Os romances históricos vieram com naturalidade. Eu comecei a escrever com outras temáticas, mais contemporâneas e intimistas. Mas quando busquei outros temas, outros desafios, a história surgiu de uma maneira muito natural. Acabei escrevendo sobre Pedro Álvares Cabral, que é talvez dos heróis portugueses o mais conhecido e o menos conhecido. Toda a gente sabe que Cabral em 1500…Brasil, mas ninguém sabe o que ele fez antes… depois.

Depois, publiquei outro livro histórico, o Índias, um romance biográfico de Vasco da Gama, que foi o arquirrival de Cabral, disputaram os favores do mesmo rei. E agora, o Fernão de Magalhães para fechar a trilogia dos grandes navegadores. Faz agora 500 anos da circunavegação de Magalhães e era o ano indicado para fazer este romance.

Viva Covilhã: O senhor teve ajuda de um historiador para o mais recente livro. Onde começa a história e onde começa a ficção nos seus romances históricos?

João Morgado: Nos outros dois eu fiz a minha própria investigação e apresento até facetas menos conhecidas dos heróis. Neste terceiro, pela necessidade de publicar ainda neste ano e por haver muitas divergências sobre o percurso de Magalhães, eu optei em trabalhar com um historiador especialista no navegador, o José Manuel Garcia. Ele fez a consultoria histórica da obra e eu fiz a ficção.

Onde separam as coisas? Bem, nós temos muitos factos, muitas datas, lugares, nomes. Mas quem quer só esses dados compra um livro de história. O romance é para ser lido como um romance. Para as pessoas entrarem na época, no contexto social, económico, político. É perceberem como era a vivência daquela época. E aí que entra a ficção. É a interligação dos factos, a forma como nós apresentamos as pessoas.

O historiador diz: o Magalhães chegou a Sevilha em 1517, em outubro. Em dezembro, casou. Em janeiro, teve uma reunião com o rei. São poucas linhas. No romance serão vários capítulos porque eu tenho que descrever tudo. É uma ficção condicionada com os elementos reais que nós temos.

Viva Covilhã: Ter sido jornalista contribui para isto? Fazer romances históricos, trazer a história de uma forma contada…

João Morgado: Às vezes, os jornalistas se ofendem quando falamos que o jornalismo é um pouco de ficção. Fui jornalista durante muito tempo e já na altura o meu editor no jornal Público dizia que eu tinha uma veia de escritor. Quando eu fazia reportagens, já tinha uma escrita diferente. Não esquecendo a factualidade das coisas, mas é importante dizer como se diz.

Viva Covilhã: Depois dessa trilogia, o senhor pretende continuar nos romances históricos ou vai buscar novas temáticas?

João Morgado: Saiu um outro livro, a biografia dos últimos anos da vida de Camões, também no século XVI. Aliás, estou a viver no século XVI há muito tempo…Eu tenho uma outra linha de romances, mais contemporânea e o próximo livro será nesta linha.

Mas antes do novo romance eu vou terminar a tese de doutoramento que está também na história e no século XVI. Abordo novamente as viagens de Magalhães. Tinha um veneziano, o Antonio Pigafetta, que foi o cronista de toda a viagem. A minha tese será sobre o trabalho do Pigafetta.

Viva Covilha: O senhor já pensou em escrever sobre a história da Covilhã, da Beira Interior?

João Morgado: Eu tenho um livro de contos que fala um pouco sobre a região. A Covilhã, realmente, tem histórias que merecem ser contadas. Por exemplo, sobre a indústria têxtil, uma área que dá muitas histórias. Ainda não escrevi um romance, mas é possível no futuro.

Viva Covilhã: O João Morgado consultor de marketing político já influenciou o João Morgado escritor?

João Morgado: Nos dois lados trabalha-se com ficção (risos). A política nos dá uma coisa que é muito importante na literatura: o conhecimento das facetas humanas, dos comportamentos, das atitudes. É fundamental para construir o perfil psicológico de um personagem.

Viva Covilhã: O que o senhor recomendaria de livro para este final de ano?

João Morgado: O romance sobre Fernão de Magalhães está na atualidade e sobre Camões traz uma visão muito diferente que as pessoas têm do escritor. Traz um Camões envelhecido, triste com a vida.

De outros autores, eu gostaria de recomendar a obra “Mãe, Promete-me que Lês”, um livro muito intimista sobre a família do escritor Luís Osório. Eu não sei nem se devo chamar de romance porque tem uma estrutura muito diferente. Um livro muito forte que vale a pena.

Giovanni Ramos

Pesquisador de media regionais, atua no jornalismo desde 2005. E-mail: web@redevivacidade.com