Estamos prontos para a pós-pandemia?

8 de Abril de 2020

Por Giovanni Ramos
Co-criador do Viva Covilhã e investigador do Re/media.Lab

Ainda é cedo para comemorar, ainda mais para baixar a guarda. Mas é facto que o número de casos do novo coronavírus não cresce tanto por dia em Portugal como era esperado há um mês. Já existe uma suspeita que chegamos no topo da curva e que muito em breve o número de pessoas infectadas vai começar a cair e o de recuperados a crescer consideravelmente. Nos próximos dias, talvez semanas, vamos ver o pós-pandemia entrar na pauta do noticiário. Mas a pergunta é: estamos preparados para o novo mundo que vem aí?

Os estragos na economia são certos. Não há país que não vá escapar de uma crise económica, com desemprego e o governo a precisar ajudar empresas e trabalhadores. E tem o facto dos Estados Unidos ainda não terem chegado no topo da crise da doença, assim como no Brasil. No outro lado do Atlântico, as coisas vão demorar ainda mais e isso afeta aqui.

O problema, como muitos autores já estão a falar, não está apenas na recuperação da economia, mas no facto que teremos um cenário muito diferente do que era antes. A quarentena e o isolamento social a qual fomos obrigados a seguir e o risco da chamada segunda onda do Covid-19 certamente afetarão para sempre nossos hábitos e com isso, muita coisa vai mudar.

O corona vai nos tornar ainda mais digitais. FOTO: Jan Vašek por Pixabay

Um exemplo simples, que venho a comentar com colegas: atividades bancárias. Eu já tinha uma conta 100% digital no Brasil, pelo simples facto de precisar ter uma conta lá, mas não ter como acessar uma agência física. O trabalho do banco digital foi bom e decidi fazer o mesmo em Portugal. Minha agência, tanto aqui quanto no Brasil é web, o telefone.

Eu sou daqueles que sempre acompanharam a tecnologia de perto, é verdade, mas a quarentena vai mostrar para muita gente que é desnecessário ir até uma agência bancária. É razoável dizermos que a pandemia vai acelerar a diminuição no número de agências físicas.  Mas não serão só os bancos: o cidadão isolado em casa descobriu que não precisa se deslocar fisicamente para fazer uma reunião, que o jornalismo na web pode substituir plenamente o impresso, que cursos rápidos e workshops (não digo os ciclos) podem ser feitos a distância.

O surgimento da internet comercial nos anos 90 já havia iniciado uma mudança drástica nos hábitos das pessoas, que consequentemente alteravam as economias e o mercado de trabalho, extinguindo profissões, criando novas. A pandemia da Covid-19 pode funcionar como um acelerador deste processo.

Como bem disse um investigador brasileiro com doutoramento em virologia, o mundo que nós conhecíamos antes do coronavírus já não existe mais. O que vem pela frente assusta, mas pode não ser tão ruim. Vai depender de todos nós…