Estranhos tempos estes…

24 de Setembro de 2019

Por Estefânia Barroso*

Existem hábitos que tenho como sendo portugueses e que, infelizmente se vão perdendo, que muito me agradavam. Um deles é o velho hábito de dizer “bom dia” àqueles que connosco cruzam o caminho e de partilhar dois dedos de conversa sempre que possível.

Nasci e vivi os primeiros anos da minha vida em França. Apesar de se tratar de uma cidade lindíssima (aconselho fortemente a visita de Chambéry, na Savoie, assim que tiverem possibilidade) a verdade é que se tratava de uma cidade grande em que cada um vivia a sua vida, embrenhado nos seus pensamentos enquanto caminhava e não existia, como tal, o hábito de cumprimentar aqueles que por nós passavam.

Ainda criança vim viver para Portugal numa pequena aldeia que só vários anos mais tarde seria promovida a vila, junto da nossa Covilhã. As diferenças entre os dois países nos anos 80 eram mais que muitas, sobretudo quando os termos de comparação eram uma cidade francesa e uma aldeia portuguesa. Mas a aldeia não perdia em todos os pontos em relação à cidade. Tinha pormenores encantadores: campos por onde podia correr com total liberdade, o contacto com bicharada (para além dos óbvios: cães e gatos, descobri que se caçavam grilos, que se apanhavam rãs – só para as devolver ao charco em seguida -, que se procurava pelos ninhos dos pássaros, só para ver os ovos e seguir com a nossa vida) e uma população extremamente comunicativa e afável. Numa aldeia do interior de Portugal nos anos 80 era considerado normal os habitantes se cumprimentarem uns aos outros com o habitual “bom dia, como está? Adorei desde o início este hábito. Ele oferece-nos a sensação que pertencemos, de facto, a uma comunidade. Quando havia tempo para parar, ou quando as pessoas se encontravam nas pequenas lojas onde se vendia quase de tudo, na padaria, ou a caminho da igreja, toda a gente conversava com quem estava: sobre o clima, o dia, os últimos acontecimentos na aldeia. Era nesses locais, ou ainda, nos cafés, que as conversas se punham em dia. É claro que adotei este comportamento tão português e, enquanto caminhava para a escola – uns bons 10 minutos – e por entre muitas brincadeiras, lá ia distribuindo os “bom dia, como está?” às pessoas que cruzavam o seu caminho comigo.

FOTO: David Costa/Divulgação

Tratando-se de uma aldeia, apenas possuía escola primária pelo que, em poucos anos, passei a ter de frequentar a escola na Covilhã. Aí a familiaridade das pessoas perdeu-se um pouco. Já não estava num meio tão pequeno em que quase toda a gente se conhecia e já não se distribuía os bons dias a quem comigo se cruzava. O ambiente tão familiar a que me tinha habituado ia-se perdendo e paulatinamente eu ia perdendo este meu hábito de dizer “bom dia”. E a verdade é que poucas vezes o voltei a encontrar. Dos estudos na Covilhã, passei para os estudos em Coimbra, para empregos em várias cidades e vilas deste país e poucas vezes me voltei a cruzar com este velho hábito de dizer “bom dia” às pessoas com quem me cruzava. Mas assumo que sinto uma sensação de aconchego quando a volto a encontrar num local ou numa pessoa.

Verifiquei há uns três anos que o velho hábito de cumprimentar quem cruza a nossa estrada não está definitivamente circunscrito às pequenas aldeias do mapa. Quis o meu destino de professora que desenvolvesse o meu trabalho numa vila do Alto Alentejo chamada de Gavião. Gavião é, como os próprios habitantes referem, um Alentejo diferente. Assumo que quando lá cheguei ainda tive algumas dificuldades de adaptação. Contudo, há coisas que me maravilharam nesta pequena vila. Destaco entre elas o facto de as pessoas ainda se cumprimentarem com um “bom dia” e um sorriso. Não importa se conhecem ou não. Todos somos brindados, logo pela manhã, com os cumprimentos matutinos. E, como já vos disse, eu adoro esse velho hábito. Adoro sentir que, apesar das manhãs sombrias, muitas vezes de nevoeiro, as pessoas abrandam o seu passo para nos cumprimentar, nos endereçar um sorriso. E sim, também mantêm o hábito de conversarem nas pequenas lojas e nas padarias. E em pouco tempo as pessoas não só nos reconhecem como já nos cumprimentam com um “bom dia, professora”. E eu adoro isso. Adoro ir à padaria, às compras, dar dois dedos de conversa com a pessoa do lado, mesmo que não a conheça. Não pertenço à comunidade mas naqueles momentos sentia-me acolhida como se fosse. Se tivesse que caracterizar Gavião numa só frase diria: “Aquela vila em que as pessoas ainda têm tempo para se cumprimentarem e desejarem um “bom dia” umas às outras”. Sem dúvida que faz a diferença no mundo em que vivemos. Contudo, quando comento isto com algumas pessoas mais novas verifico que sentem alguma estranheza nesse comportamento: “dizer bom dia a quem nem se conhece? Não fomos ensinados a não falar com estranhos?”

E a verdade é que, mesmo nas cidades, por vezes cruzamo-nos com esta forma de estar que tanto admiro. Há uns dias, na minha cidade da Covilhã, entrei pela manhã num estabelecimento comercial que tem um pequeno café para tomar o pequeno-almoço. Enquanto procurava mesa, uma senhora com uma venerável idade, sentada numa mesa sozinha, convidou-me para sentar na mesa dela. Aceitei e começámos logo a conversar. Começou por me dizer que ela era uma “conversadora sem atalho” (fala muito). Falou-me do marido, dos filhos, da sua vida em França, da sua vida cá, dos netos, do divórcio de um dos filhos. Falou-me da sua juventude e dos seus sonhos. Uma riqueza de pessoa. Quando dei por mim tinha passado mais de meia hora e tive de sair. Disse-me que por ali iria continuar à espera do marido que estava demorado. Quando ia embora, já de pé, disse que tinha sido um gosto conhecê-la e que, sem dúvida, tinha tornado o meu pequeno-almoço e até o meu dia bem mais simpáticos. Foi aí que notei o ar de espanto de algumas pessoas que se encontravam nas mesas ao lado. Não tenho o poder de ler mentes mas fiquei com a sensação que eram caras de estranheza como quem se questionava: “afinal, aquelas duas que conversavam tanto instantes antes, não se conheciam???”  

Segui o meu caminho pensando que vivemos num mundo muito estranho mesmo: passamos os dias a desejar bom dia numa qualquer rede social aos “amigos” que muitas vezes incluem os amigos de sempre, mas também aqueles que não vemos há mais de 20 anos, aqueles que apenas conhecemos da rede social, aqueles que conhecemos de vista. Contudo, estranhamos quando pessoas que não se conhecem decidem desejar um bom dia quando se cruzam na rua ou quando duas pessoas decidem partilhar o café e dois dedos de conversa num qualquer café da cidade apenas porque o acaso os juntou naquele dia e naquela hora…Estranhos tempos estes…

*Estefânia Barroso é professora, cronista e contista nas horas vagas.
Gere o blog “Steff’s World – a Soma dos Dias”

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