Lar, importante, lar

31 de Março de 2020

Por Giovanni Ramos*

Fique em casa! A frase de ordem que lemos e ouvimos nas últimas três semanas em Portugal. Desde que o coronavírus tornou-se uma pandemia global, o mundo inteiro só fala em ficar em casa, em criar coisas para ficar em casa. Até mesmo a neve que caiu nesta semana na Covilhã teve que ser apreciada sem sair do lar.

Na semana passada, abordei a importância da internet nesses dias de quarentena. Interação, jogos, filmes, músicas, séries, cursos a distância, sem contar os serviços que podem ser feitos a partir de casa. Tenho uma conta bancária aqui e uma no Brasil, ambas de bancos digitais.

Mas ficar em casa não é apenas estar em frente ao computador, aos livros, à televisão ou ao seu dispositivo móvel. Não aguentamos tanto tempo fazendo a mesma coisa. Temos a necessidade de nos mexer, movimentar. O que faço no apartamento que resido? Aproveito para dar uma caminhada da sala ao quarto, vou à varanda da sala e caminho em poucos passos enquanto pego um pouco de sol.

Que privilégio! Já morei junto ao Pelourinho e decidi afastar-me um pouquinho mais em troca de uma residência melhor e já colho os frutos da escolha. Considero-me um privilegiado, pois onde eu moro é agradável e isso diminui a tensão da quarentena que passamos todos os dias.

Se está bom para mim, imagine para quem reside em casas com quintal, um terreno maior. Melhor para aqueles que entram na quarentena dentro de uma quinta (com internet, claro). A pessoa pode até sentir-se isolada, mas não trancafiada, presa.

Chamo isso se privilégio, pois sei que milhares de pessoas ao redor do globo, inclusive em Portugal, não desfrutam deste direito. O que para nós é um lar, para outros é apenas um teto para dormir e comer. Mas longe, muito longe de ser chamado de meu lar.

Escrevo esta crónica em Portugal, mas com a cabeça no Brasil, um país onde milhares de pessoas vivem em condições subnormais de moradia, as chamadas favelas. Faltam segurança pública e saneamento básico. As construções precárias recebem muito mais moradores do que deveriam ter. Pedir isolamento social para um cidadão que divide um quarto com mais seis pessoas é um insulto.

Peça aos moradores desse bairro para fazerem um isolamento social. FOTO: Divulgação

É em situações como a atual, em que somos obrigados a ficar em casa, que percebemos o real valor de uma moradia digna. Dignidade não é apenas ter um teto para dormir, é ter um espaço minimamente aceitável em que o cidadão possa chamar de meu lar, um lugar sagrado.

A sociedade não será mais a mesma depois da pandemia do coronavírus. Entre os inúmeros temas que vão estar na mesa na reconstrução das sociedades, a moradia digna deveria ser um deles. Utopia, não?

* Jornalista brasileiro, investigador do Re/media.Lab e um dos criadores do Viva Covilhã