O coronavírus e a pandemia da desinformação

10 de Março de 2020

Por Giovanni Ramos*

Até às 20h de terça-feira, 10 de março de 2020, momento em que este artigo é escrito, o concelho da Covilhã não possui NENHUM CASO registado do Covid-19, o popular Coronavirús. Um cidadão infectado esteve na Covilhã há duas semanas, o que fez com que pessoas fossem isoladas. Mas até o momento desta publicação, nenhum dos isolados apresentou sintomas.

Não por acaso, a Universidade da Beira Interior decidiu cancelar os eventos públicos, entre outras medidas do plano de contingência, mas MANTEVE AS AULAS. Começo este artigo repetindo essas informações, fundamentais para a discussão do tema principal: o coronavirús corre sérios riscos de se tornar uma pandemia global, mas, por enquanto, o que temos de pandemia é a DESINFORMAÇÃO.

Desinformação vai além das fake news. Nem toda a desinformação publicada e disseminada na internet é falsa. Ela pode estar fora de contexto. Quer um exemplo: correu na Covilhã na segunda e terça-feira que a cidade já teria SEIS CASOS DO CORONAVÍRUS.

IMAGEM: Divulgação

As boatarias surgem com um padrão conhecido: é o tal do “disseram-me, mas não querem divulgar“. Quem não quer divulgar, camarada? O mundo inteiro só fala disso nas últimas semanas e vocês acham que as autoridades iriam tentar esconder algo que pode piorar se não for divulgado?

Depois, veio uma notícia que correu as redes sociais com o seguinte título: “Seis alunos e seis professores em isolamento devido ao coronavírus na Covilhã”. Sim, pessoas foram isoladas por causa de um professor infetado que esteve cá, mas não há casos, NEM SINTOMAS, segundo a própria notícia. PIOR: a reportagem é do dia 5 de março. Assim, a única novidade desta terça-feira (10) foi a decisão da UBI.

A notícia em questão utilizou a técnica de clickbait – apelativo e desinformador, para alcançar mais cliques. Pelo título, dá a entender que pode existir pessoas infetadas na cidade.

A notícia circula nas redes sociais com cinco dias de atraso e muitos não leem o conteúdo, ficam apenas no título e tiram suas próprias conclusões: o vírus já está na Covilhã, o tal boato seria verdadeiro.

O caso do coronavírus e a cidade é apenas um exemplo de como a desinformação e as fake news estão a deteriorar as sociedades e as democracias em todo o globo. O pânico com o vírus, uma epidemia que PODE tornar-se uma pandemia, leva o público a acreditar em qualquer tipo de informação que recebe. Isso não é novidade. Em 2009, a Gripe H1N1 foi uma pandemia global, mas os boatos foram ainda mais longe do que a doença.

É óbvio que precisamos saber se há ou não infetados pela doença na cidade em que vivemos. Mas a maneira como muitos media cobrem a epidemia deve ser questionada: o aumento do número de casos na Itália não é mais importante do que orientar as pessoas para o que elas devem fazer, tendo contacto próximo com infetados ou não. Não estamos numa competição de qual país tem mais casos, mas esta é a impressão que temos quando acompanhamos alguns noticiários.

Lavar sempre as mãos, evitar contacto com pessoas que vieram de áreas infetadas e ficar atento aos sintomas são algumas recomendações das autoridades de saúde para a prevenção do Covid-19. Abaixo, uma série de recomendações minhas para prevenir a pandemia da desinformação.

  • Não tire conclusões a partir de um título. Leia a notícia toda.
  • Observe a data que ela foi publicada.
  • Observe se a página na internet pertence a um órgão de comunicação social conhecido.
  • Desconfie sempre, confira em outros jornais, rádios ou TV se a mesma informação procede.
  • O seu amigo nas redes sociais nem sempre sabe de tudo. Só porque você conhece quem repassou a informação, não significa que ela é credível.
  • As autoridades não vão esconder casos de coronavírus, pois isso facilitaria a transmissão e a informação seria descoberta de qualquer forma.

* O autor atua no jornalismo desde 2005, é investigador do Re/media.Lab e consultor de comunicação digital.