O imperialismo gastronómico

3 de Março de 2020

Por Giovanni Ramos*

Estou a planear uma viagem ao Brasil durante o verão. Apesar de brasileiro, tenho horror às altas temperaturas e não me acostumei ainda a morar em um concelho onde as temperaturas podem ser negativas no inverno, mas acima de 40 no verão. Vou sair dos 46 graus daqui para o frio do Sul do Brasil, fraco para os padrões europeus, mas ainda possível de assim nomeá-lo.

Na bagagem, devo levar garrafas de vinho e queijo amanteigado de ovelha da Serra da Estrela. Lembranças de Portugal? Presentes? Que nada! Os presentes são queijos e vinhos, mesmo. É o que as pessoas que me conhecem, que estão no Brasil, esperam e é sobre isso que vou falar na crónica de hoje: vivemos na era do imperialismo gastronómico.

Esqueçamos viagens caras, luxos, produtos informáticos de alta tecnologia. O que as pessoas querem hoje é esbanjar, comendo e bebendo bem. Sofisticação é ter um bom vinho na mesa, uma cerveja artesanal pouco encontrada no mercado, frutos da época e fartura, muita fartura.

FOTO: Divulgação

Uma prova de que vivemos na era gastronómica é o sucesso que o Masterchef faz no mundo. Seja em Portugal, seja na Inglaterra, onde começou, seja no Brasil, milhares de pessoas ficam em frente à TV para ver chefs de cozinha apresentarem suas artes culinárias. Mas o sucesso não se restringe aos profissionais: digite #instafood no Instagram para ver o que milhares de cozinheiros anónimos fazem ao redor do globo.

Todo esse sucesso ocorre porque queremos comer bem, o prazer da gula em sua escala máxima. Fenómeno este não restrito apenas às altas classes sociais, apesar de que, enquanto um terço da população mundial faz regime, outro terço passa fome.

A gastronomia é também um elemento cultural, cada vez mais evidente e importante em uma sociedade globalizada. Levar a sua gastronomia para outros territórios é uma forma de promover e defender sua cultura. Nos tornamos nacionalistas quando o assunto é cozinha.

Duvida? Experimente, você, português, um café nos Estados Unidos. Nem mesmo os brasileiros gostam daquilo (chamamos de chafé). Conheço um português que morou em Barcelona e tinha dificuldade de ir aos cafés, “porque o café deles é muito ruim“.

Nós, brasileiros, também somos assim, imperialistas gastronómicos. A pequena e aspirante a cosmopolita Covilhã já possui alguns restaurantes focados na culinária brasileira. Brasileiro sai do Brasil mas não aceita viver sem farofa, brigadeiro, pão de queijo… E o que dizer dos gaúchos, que fazem uma sofisticada operação logística internacional para garantir o chimarrão entre os seus?

A gastronomia é, sim, um elemento fundamental na guerra cultural dos dias de hoje. O carro chefe do turismo em diversos lugares e uma das formas mais interessantes (eu diria deliciosas) de fazer intercâmbio cultural. Vou terminar esta crónica agora, porque já estou a ficar com fome…

* O autor é consultor de comunicação digital, estudante de doutoramento, um dos criadores do Viva Covilhã e produtor de pão de queijo para consumo próprio nas horas vagas.