O museu dos fones perdidos

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Por Giovanni Ramos*

A cada semana que chuva intensa na Covilhã, eu costumo perder um guarda-chuva. É uma das minhas especialidades: sou um bom samaritano que distribui guarda-chuva nos locais que visito. Involuntariamente, claro. Outra especialidade é perder fones de ouvido. E costumo perder eles nas situações mais importantes, como horas antes de entrar num voo.

Perder fones de ouvido antes de voar é imperdoável, porque são equipamentos de primeira necessidade numa viagem. Fones de ouvido e WiFi são essenciais para a sobrevivência humana. O cronista brasileiro Gregorio Duvivier já dizia que é melhor ter WiFi do que ter razão. Num voo, você já não tem WiFi. Ficar sem fones de ouvido é uma tortura.

Como descansar em uma viagem de quase três horas em uma música para relaxar. Ou mesmo aquele podcast sobre um assunto que você nem está interessado, mas a conversa distrai. Sem fone de ouvido e WiFi, um telemóvel torna-se inútil. Deixo-o desligado e procuro outras formas de distração. O kindle é um companheiro velho de viagem, mas de nada adianta se você não abastecê-lo antes. Um livro de contos guardado há tempos pode ajudar. Leio um conto, leio o segundo e não quero mais.

Neste momento passa o pessoal da Ryanair vendendo comida e bugigangas. Sim, o voo é Ryanair. Se fosse uma outra cia, talvez eles doassem um fone de ouvido. Mas aqui tudo é cobrado, até o ar que você respira dentro do avião. O que mais me diverte nos voos da Ryanair são as vendas de raspadinhas. Eu me sinto em uma rua popular do Brasil quando vejo isso. Desconfio que um dia a cia irá colocar pedintes e carteiristas dentro das aeronaves, para dar mais emoção.

Uns leem, outros estudam para as frequências. Até as velhas palavras cruzadas são preenchidas durante a viagem. Encontrei até uma planilha do Excel aberta, a prova que não pode-se perder tempo, nem mesmo em um voo. Continuo a sentir a falta dos fones de ouvido. Queria estar a ouvir as minhas músicas relaxantes (tipo System of a Down) que me distrairiam até em um período de turbulência.

Se não quero mais ler, não posso ouvir, nem acompanhar os memes no Twitter, só me resta escrever. É assim que surge esta crónica. Um momento de distração enquanto acompanho as horas para saber se já estou mais próximo a Lisboa. É por essas e outras que prefiro viajar de comboio. Quase sempre há sinal de internet no caminho.

Enquanto escrevo penso que terei que comprar outro fone de ouvido. Já bastou ficar sem música durante o voo. O caminho até Covilhã será imperdoável sob o silêncio. Fico a pensar que se encontrasse todos os fones que perdi, poderia montar um museu, o Museu dos Fones Perdidos. Ou então, montar um mapa a anotar cada cidade que deixei um deles.

A mais uma hora de voo e não vou conseguir escrever durante toda a viagem. A turbulência já passou, o café já acabou e eu preciso salvar esse texto, porque offline nada se salva. Duvivier estava certo. Melhor ter Wifi sempre. Vou fechar a crónica por aqui e depois agendo a publicação para o outro dia. Esta crónica, que uma jovem portuguesa ficou a ler enquanto escrevia, é algo que todos nós podemos passar. Nunca perca seus fones de ouvido….

*O autor é jornalista brasileiro, investigador e estudante de doutoramento em Comunicação na UBI. Escreve crónicas por lazer. Escreva também sua crónica. Envie para vivacovilha@gmail.com – as portas estão abertas.