Observadores anónimos

21 de Abril de 2020

Por Giovanni Ramos
Viva Covilhã

Uma chuva fina, porém persistente que invade minha varanda e molha as roupas que coloquei no varal. Os gatos que moram na quinta ao lado estão escondidos, assim como as vespas, que não me visitam em dias chuvosos. Sim, vespas. Desde que vim morar na Covilhã, há quatro anos, foram tantas vespas a entrar nos aparamentos que morei que já tornei-me conhecido delas.

Além das vespas, há outros insetos que nunca tinha visto no Brasil. Uma variedade tão curiosa, que desconfio que vários deles nunca foram catalogados pelo homem. Morar próximo a uma quinta tem dessas coisas. Assim como tenho atração pela cerejeira, que estava maravilhosamente florida há algumas semanas, os moradores da quinta, os insetos, refiro-me, também desejam conhecer minha morada.

Outra coisa que chama atenção é o prédio abandonado atrás da quinta. Acho essas construções abandonadas, em ruínas, um charme. Posso assim entender pois não há aqui na Covilhã os riscos que uma edificação dessas teria nas terras de onde venho. No Brasil, prédio abandonado acaba virando ponto de usuários de crack e criadouro de mosquitos causadores de doenças como a dengue e o zikavírus (essas doenças tropicais, sabe?).

A quinta, as vespas, as construções abandonadas e os 34456456343 gatos que aparecem na rua. Eu prefiro observar da varanda da minha sala que do meu quarto. Do meu quarto vejo ruas, prédios, gente. Eu até gosto de observar pessoas, mas não quando elas estão nas casas delas. Assim como não gostaria de ser observado.

FOTO: Giovanni Ramos/Viva Covilhã

Sim, meus amigos, esta é uma crónica sobre a observação. Em tempos de quarentena, multiplicam-se os observadores de janelas, varandas. Sim, em outra crónica já falei do sofisticado sistema de vigilância portuguesa a partir das senhoras que ficam nas janelas. Com a pandemia, tornamos todos nós essas senhoras.

O coronavírus criou um exército de observadores anónimos, principalmente nos dias ensolarados, quando vamos a varanda para pegar um pouco de sol. Não temos a intenção de saber a vida de ninguém, apenas queremos olhar uma coisa que não seja nossos computadores, televisores ou os utensílios da cozinha.

Há aqueles que preferem observar as pessoas nas rua ou me outras varandas, que possivelmente também são observadores anónimos. Há outros como eu, que preferem ver detalhes pitorescos do cotidiano chulo da Covilhã, ou mesmo clichês entediantes como o por do sol, o amanhecer, detalhes da Serra.

Observação anónima e despropositada pode ser muito útil no combate ao tédio. Pode rendar algumas curiosidades interessantes ou mesmo o assunto para uma crónica.

Agora, deem-me licença porque ainda está claro e eu vou observar mais um pouco….