Pequenos prazeres interrompidos

20 de Maio de 2020

Por Giovanni Ramos

Um café, por favor. Confesso aos leitores que ainda sou acostumado a pedir um café e vir um abatanado. Coisas de quem vem de outro país e ainda mantém hábitos antigos. Mas juro, estou a aprender a tomar o café como os portugueses.

Peço um café e fico a observar a Serra. Este hábito eu tenho desde que cheguei por essas terras em 2016. Apreciar a paisagem local é algo que ainda não cansou-me, algo que talvez os moradores nativos já estejam mais do que cansados.

Um café, uma vista para a Serra e crianças a brincar no jardim, jovens a conversar pessoalmente depois de um tempo de distanciamento. O sol ajuda, a temperatura ajuda, tudo ajuda. Uma tarde maravilhosa no jardim, apreciando aquela sensação de liberdade que parecia que tinha sido retirada de nós.

Parece banal, não? Ora, todos tomam café e todos já foram milhares de vezes ao jardim. Em toda a primavera isso ocorre. As flores, as pessoas nas ruas, as esplanadas cheias. O que há de novo, nisso?

FOTO: Giovanni Ramos

O que há de novo é a recuperação de pequenos prazeres que foram interrompidos. Coisas pequenas, simples, mas fundamentais para o nosso dia-dia, ressignificam depois de uma quarentena. Não que a gente não soubesse valorizar essas pequenas coisas, mas a sensação de fazer isso depois de ser proibido de fazer é maravilhosa.

Coisas boas que fazemos na vida, que nós apreciamos às vezes sem perceber, mas sentimos um vazio quando são interrompidos. O distanciamento social até parece algo fácil de lidar-se quando olhamos sob um aspeto racional. Mas quando lidamos com sentimentos…

Um pequeno café no jardim, uma observação da paisagem, um abraço, um beijo, uma troca de carinhos e olhares, entrar em um museu onde você já conhece a exposição, entrar numa bibiloteca, ver rostos, pessoas, histórias, gestos. Não nascemos para viver desprovido dessas e de muitas outras pequenas coisas.

Semana passada eu falei sobre a sensação de ainda estarmos na quarentena. A pandemia não acabou. O caminho até a dita normalidade é longo. Talvez mesmo por isso, observo esses detalhes que o início do desconfinamento trouxe e os aprecio tanto.