Um lexotan natural

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Eu tenho asco a remédios. Na verdade, eu tenho medo de remédios, por isso finjo que tenho asco. Coloco o manto do nojo por cima de muitas coisas que tenho medo. Eu sou daqueles que ficam com dor de cabeça para não tomar dipirona. E nunca tenho remédios em casa, na mochila, quando alguém precisa, alguém me pede.

Também não sou daqueles que vivem nos chás. No máximo, um chá de camomila, que assim como o café nos dias mais cansativos, já não faz mais aquele efeito de outrora. Não conheço os caminhos da cura, não sei muito o que fazer quando estou mal.

Esta é uma crónica sobre remédios? Não! E vou recomeçar essa história falando de algo que já escrevi em outros espaços: sobre o meu caso com o Mar. Nasci do outro lado do Oceano Atlântico, mas há apenas 50 quilómetros dele. Mesmo branco demais, mesmo sobre a sombra, eu sempre apreciei o oceano e a calmaria que me traz. Gosto de praia no verão, no inverno, em qualquer momento, em qualquer situação.

E quando você vai morar muito longe do mar, a 700 metros de altura, ao pé de uma serra, o mar torna-se ainda mais significativo. Até mesmo um rio pode ser. Água, eu preciso de água para me acalmar. Recentemente produzi um material sobre a ribeira de Cortes do Meio para o Viva Covilhã…que pedaço do paraíso aquela localidade. Quanto mais água corrente, melhor.

No mês passado, estive em Colónia, Alemanha. Novamente longe do mar, mas com o Reno a brilhar e tornar o final de tarde perfeito. Foram pouquíssimos dias em território alemão, mas necessários para o meu dia-dia.

Colónia/Alemanha, no mais recente remédio do autor

Esta crónica é então, sobre o mar? Sobre rios? Ainda não. Esta crónica é sobre viajar. Sobre tirar uns dias para deixar o mundo de lado e viver em uma realidade paralela, onde os problemas desaparecem, onde a carga se desmancha. Libertar-se do cansaço mental e permitir-se o cansaço físico, por horas e horas de intermináveis caminhadas. Momentos longe do computador, longe desse teclado, longe de tudo.

Assim como escrever, viajar é a minha terapia, é o meu remédio, o meu lexotan. Viver na ansiedade é viver no futuro e isso não há como mudar. Se o futuro é uma viagem, o foco aumenta, a concentração aumenta, o tempo passa mais rápido, o corpo trabalha mais,  a mente vai a exaustão. De distraído, impaciente e indeciso, continuo confuso, mas tranquilo e contente. A definição de paixão do compositor brasileiro Renato Russo se encaixa quando viajo.

Viajar para qualquer lugar, qualquer destino, qualquer valor. Seja para um lugar distante, seja para um lugar ali do lado, como Cortes do Meio, o importante é estar em outro lugar.

Viajar é o meu remédio, a minha droga, o meu tratamento. Escrevo para desabafar, viajo para me desligar. Eu preciso me mexer para me acalmar. Eu só preciso ir por aí….