Destaques de 2019

VivArte #10 – As dicas do ano

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Última coluna de 2019 apresenta obras lançadas durante o ano

O ano de 2019 está a acabar e a coluna VivArte traz dicas não apenas para este fim de semana, mas para toda a quadra das festas. O disco, o livro e o filme desta edição são obras lançadas este ano e que estão entre as melhores, segundo os comentadores culturais do Viva: Giovanni Ramos, Fábio Jardelino e Maurília Gomes.

FILME DE 2019 – Bacurau

*Por Fábio Jardelino

Pode parecer suspeito que um brasileiro escolha um filme brasileiro como melhor filme de 2019. Pode parecer ainda mais suspeito um pernambucano eleger Bacurau como melhor filme de 2019, considerando que os diretores e boa parte da produção são pernambucanos. Mas aqui não se trata de nacionalismo ou regionalismos, Bacurau merece sim esse título e eu vou explicar o motivo nas próximas linhas.

Você pode me questionar – mas e as grandes produções hollywoodianas, não são melhores? – e eu vou responder que não. Por um único motivo: elas não dialogam diretamente comigo ou com você. Bacurau, pelo contrário, dialoga. E quando falo comigo, não estou me colocando como brasileiro, pernambucano, fã de cinema regional. Coloco-me como cidadão indignado, como ser político, como morador neste mundo que às vezes é tão injusto e caótico. Bacurau é isso, é o retrato de tudo que há de errado na nossa realidade, sendo confrontado com o cidadão muitas vezes passivo e alheio à essas mazelas.

Vou ser bem sincero com vocês, fiquei bastante na dúvida entre os filmes Bacurau e Joker, pois ambos levantam esse mesmo sentimento em mim, mas acredito que no fim, a linguagem do primeiro me marcou mais. Aliás, marcou não, me acertou em cheio, como uma tacada de bastão de baseball bem na minha testa. Bacurau é repugnante – quando precisa – e emocionante – quando deve.

Os diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles conseguiram colocar no mapa do mundo o Sertão brasileiro – uma área marcada historicamente pela dificuldade social e econômica vivida pelo seu povo. Mas antes disso, gravam a beleza, simplicidade e garra daquela comunidade na história do cinema mundial. Uma cena do filme já previa isso, quando a cidade fictícia “Bacurau” simplesmente desaparece do mapa e fica à mercê dos bandidos, são os sertanejos que precisam defendê-la. E eles o fazem. Assim como Kleber e Juliano o fizeram.

Mas, olha só, não fui apenas eu quem achou Bacurau o melhor filme do ano. Os entendidos lá em Cannes também acharam – o filme ganhou o Prêmio do Júri do Festival. E não foi só na França que a produção brasileira foi vitoriosa, também na Alemanha, levando o Melhor Filme no Festival de Munique, entre outros inúmeros festivais internacionais que participou e foi vitorioso.

Bacurau tem também um elenco classe A, escolhido a dedo. Fazem parte Sônia Braga, Udo Kier, Silvero Pereira, Bárbara Colen, entre outros. O título do filme, a propósito, incorpora mais um fator identitário: é o apelido do último ônibus da madrugada que roda no Recife, capital de Pernambuco, e a origem do nome vem de uma ave comum nos Sertões, de hábitos noturnos, que era chamada pelos povos Tupis de Wakura’wa.

Realmente, 2019 foi um ano repleto de grandes produções, talvez para você que está a ler esse texto, até melhores. Mas, para mim é, e sempre será, o ano de Bacurau, a luta do modesto povo sertanejo, contra os males externos desse mundo caótico.

*Fábio Jardelino é Pernambucano, Jornalista, Pós-graduado em cinema e atualmente faz Doutorado em Comunicação pela Universidade da Beira Interior.

O DISCO DE 2019 > Rammstein – Rammstein

*Por Giovanni Ramos

Foram 10 anos sem lançar um álbum novo de estúdio. No dia 18 de maio deste ano, a banda alemã Rammstein voltou ao mercado com um álbum homónimo, um disco que chegou batendo recordes e no primeiro lugar em 14 países.

Antes de lançar o álbum, a banda lançou, em março, seu primeiro single, Deutschland, que causou polémica em todo o mundo por fazer menções aos campos de concentração nazistas. A música, junto do videoclipe, é uma homenagem à Alemanha, recontando a história do país tanto nos momentos bons, quanto nos momentos ruins.

Deutschland é a primeira canção símbolo do álbum, que mereceu um fantástico videoclipe de nove minutos, um curta metragem musical. Mas todo o álbum merece menção na coluna. As músicas seguintes trazem o que o Rammstein sabe fazer de melhor: unir o rock pesado com a música eletrónica. Canções como Radio e Ausländer exploram o ritmo industrial e um tanto pop, próximo de uma música de festa.

Em Puppe, Was Ich Liebe e Diamant, o Rammstein explora um tom dramático, com músicas que começam lentas e tornam-se pesadas ao longo da canção. Weit Weg mantém o ritmo, apesar de trazer um pouco mais a batida eletrónica das canções citadas anteriormente.

Em Sex e Tatoo, o Rammstein de sempre aparece, com som pesado, animado e batidas eletrónicas ao fundo. O álbum homónimo termina com Hallomann, uma música que combina com trilhas sonoras de filmes de terror, em um estilo muito próximo a algumas canções de Nine Inch Nails e Marilyn Manson.

Não deixe de ouvir Deutschland, de preferência com o videoclipe. E para quem gosta de música eletrónica, a pedida é mesmo Radio.

*Giovanni Ramos é doutorando em Comunicação, investigador e um dos criadores do Viva Covilhã, com 14 anos de experiência no jornalismo.

O LIVRO DE 2019 > Essa Gente, Chico Buarque

*Por Maurília Gomes

“Visto aqui do alto, o bairro não difere muito de uma favela. A barafunda de edifícios sem telhas lembra um amontoado de caixas de sapato destampadas, numa sapataria revirada em dia de liquidação. Nos seus recintos, porém, durante anos cheguei a ser feliz, casei, tive amantes, comi, bebi, joguei pôquer com amigos, frequentei escritórios, consultórios, papelarias, cabeleireiros, sapatarias e tal. Ultimamente não mais, é como se eu viesse de uma temporada fora, e na minha ausência o restaurante tivesse virado uma farmácia, a farmácia um banco, o banco uma lanchonete, e a população tivesse sido substituída por outra, que me torce o nariz como a um imigrante, um pobretão. Mal sabe essa gente que nos últimos anos morei na rua mais nobre do bairro com a bela Rosane que também virou outra, e que hoje decerto me considera um estranho”.

É assim que o bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, é descrito por Manuel Duarte, autor de um best-seller chamado O Eunuco do Paço Real, que vivencia um bloqueio criativo e luta para voltar a escrever e sair do colapso financeiro e afetivo em que está enterrado. Além da falta de inspiração, o leitor acompanha os conflitos de suas relações pessoais, com destaque para as ex-mulheres e o filho pré-adolescente.

A cortina de fumaça criada por Chico Buarque, em seu novo romance Essa Gente, revela, quase em migalhas, o Brasil da atualidade. Como se embarcados em um navio, a avistar a terra de longe, os devaneios literários de Duarte conduzem-nos a um passeio pelas questões sociais e políticas do Rio de Janeiro. Enquanto a violência se alastra em volta dos mais pobres, uma juíza federal preocupa-se que a conduta social do vizinho (o protagonista da história) prejudique a ilibada reputação do edifício residencial Saint Eugene.

Textos curtos e escrita simples como se fosse um diário fazem deste um livro daqueles que lê-se rapidamente. Já as feridas abertas por ele, certamente, demorarão a fechar. Como um quebra-cabeças difícil de montar, a narrativa é centrada em 2019, contudo resgata alguns fatos do passado para dar algumas pistas ao leitor de como construiu-se o presente que, a cada nova revelação, dilacera a alma do brasileiro.

No próximo 25 de abril, Chico Buarque receberá, em Lisboa, o Prêmio Camões – maior honraria do universo da língua portuguesa. Dizer que esta é uma leitura essencial para fechar 2019 pode até parecer redundante, mas quando se trata de Chico Buarque, a redundância e o jogo de palavras são fundamentos da escrita, seja em livros ou em canções.

*Maurília Gomes é relações públicas do Viva Covilhã, estudante de doutoramento na UBI.

 

Pesquisador de media regionais, atua no jornalismo desde 2005. E-mail: web@redevivacidade.com

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