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VivArte #16 – As batalhas do Óscar

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Sétima arte domina a edição desta semana

Na madrugada de domingo (9) para segunda-feira (10), a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciará, em Los Angeles, os vencedores do Óscar 2020. A VivArte entra no clima com dois destaques: no vídeo, Aline Grupillo destaca a batalha dos gigantes pelo prémio de Melhor Ator Secundário. Nas críticas, Giovanni Ramos, Fabio Jardelino e Maurília Gomes comentam os quatro filmes com maior números de indicações.

Joker – 11 indicações

Melhor filme, realizador, ator, argumento adaptado, edição, banda sonora original, mistura de som, edição de som, fotografia, caracterização, guarda-roupa

Por Fábio Jardelino*

Ainda em exibição nos cinemas mundo afora, o filme Joker já é considerado por críticos – inclusive esse que vos escreve – o filme do ano. Durante os seus 122 minutos, não há uma única cena em que as sutilezas metafóricas não sejam perceptíveis. E a principal está justamente por trás da singela maquiagem de palhaço, que esconde a assustadora luta interna por uma nova percepção de realidade.

A competencia performática de Joaquin Phoenix como Joker o coloca em pé de igualdade com os antecessores Jack Nicholson e Heath Ledger. Não há, porém, como afirmar quem é melhor – o famoso vilão tem várias facetas desenvolvidas nos quadrinhos e, representando cada uma delas, esses três atores cumpriram seus objetivos.

O Joker de Phoenix em nada se parece com o representado no filme O Cavaleiro das Trevas – e nem deveria. Enquanto o anterior trazia um perfil anarquista claramente baseado no HQ Piada Mortal, o atual dramatiza o Joker psicopata da edição Asilo Arkham escrita por Grant Morrison. No começo do filme, Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) é apenas um homem atormentado pelas mazelas da vida, mas ao fim é o facínora que habita seu corpo.

Percebemos essa mudança de forma clara, a começar com o rítimo do filme imposto pelo realizador Todd Phillips. A cada minuto que se passa, é acentuada a evolução do personagem, assim como o crescimento das distorções que, aos poucos, vão transformando o seu caráter. O espectador vai junto nessa evolução, seja na angústia causada pela risada incontrolável de Fleck, ou na aflição que Gotham City e seu ambiente pouco atrativo cria.

Finalmente, o filme funciona como um estímulo para a reflexão da nossa própria realidade. Qual a natureza de alguém que apesar de estar sempre com um sorriso pintado no rosto, não tinha nenhum motivo real para ser feliz?

*Fábio Jardelino é Jornalista, pós-graduado em Cinema, doutorando em Comunicação pela Universidade da Beira Interior e escreve como colaborador voluntário.


1917 – 10 indicações

Melhor filme, realizador, argumento original, caracterização, efeitos visuais, fotografia, design de produção, banda sonora original, edição de som, mistura de som

Por Giovanni Ramos

A segunda guerra mundial foi diversas vezes retratada no cinema. Desde o dramas dos judeus como A Lista de Schindler (1993) e grandes produções como O Resgate do Soldado Ryan (1998). No entanto, pouco se falou nos cinemas sobre a primeira guerra mundial. 1917, do realizador inglês Sam Mendes, mostra o drama de soldados na primeira grande guerra e está entre os favoritos ao Óscar de melhor filme, após vencer o globo de ouro de melhor filme de drama em janeiro.

1917 conta a história dos cabos ingleses William Schofield (George MacKay) e Thomas Blake (Dean-Charles Chapman). Eles recebem a missão de se deslocar no campo de batalha entre ingleses e alemães, na França, até outro pelotão do exército inglês, que preparava uma ofensiva. Os cabos carregam uma carta com ordens para o pelotão não avançar, pois cairiam em uma armadilha do inimigo.

O grande destaque de 1917 está na forma em que a obra é contada. O realizador Sam Mendes utiliza técnicas para parecer que toda a história é contada em um único “plano-sequência”, como se não houvesse cortes. De facto, diversas cenas foram feitas com plano-sequência, sem o uso de edição, o que torna a obra mais interessante de ser vista.

Além da edição, acrescenta-se o ótimo trabalho na fotografia e som, indispensáveis para um filme de guerra e a ótima atuação de George MacKay. O público no cinema pode ter a sensação de estar em um video-jogo de ação, pois a história concentra-se nos dois personagens principais que recebem uma missão no começo do filme, e os acompanha nas dificuldades encontradas no caminho até chegar ao outro pelotão.

Sam Mendes se baseou nas histórias do avô, Alfred Mendes, que lutou na primeira guerra mundial, para fazer a história de 1917. Realizador com origens no teatro e premiado na sua estreia no cinema com o Óscar de melhor realizador em 2000 por Beleza Americana, Mendes tem um filme com uma boa produção e com um tema que sempre agradou Hollywood a seu favor na disputa deste ano.


O Irlandês – 10 indicações

Melhor filme, realizador, argumento adaptado, efeitos visuais, fotografia, design de produção, montagem, guarda-roupa e ator secundário (duas indicações)

Por Maurília Gomes

Martin Scorsese consagrou-se como um dos grandes realizadores do cinema. Os filmes sobre máfia são uma marca de sua trajetória, que acaba de ganhar mais uma belíssima produção com O Irlandês (The Irishman), lançado pelo serviço de streaming Netflix.

Com três horas e meia de duração, o filme acompanha a trajetória de Frank Sheeran (Robert De Niro) que tornou-se o matador de confiança de uma família mafiosa nos Estados Unidos da América. O argumento assinado por Steven Zaillian baseia-se no livro homônimo, de autoria de Charles Brandt, percorre alguns mistérios relacionados à máfia estadunidense e revela acontecimentos relacionados à família Kennedy e a Jimmy Hoffa (Al Pacino), líder do sindicato de camionista estadunidense, na década de 1970.

Não é a melhor obra de Scorsese, mas cumpre bem o papel a que se propôs com um ritmo consistente, diálogos bem elaborados, produção impecável e belíssimas atuações de De Niro, de Joe Pesci e de Al Pacino – dirigido pela primeira vez pelo realizador.

Sem grandes surpresas para os fãs de filmes do gênero, ainda assim vale à penas assistir. A produção recebeu 10 nomeações para o Óscar 2020, incluindo Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Ator Secundário – categoria em que concorre em dose dupla com Al Pacino e Joe Pesci.

Sobre a premiação, minha opinião é que O Irlandês é uma produção de qualidade elevada e chega à cerimônia com grandes chances de levar algumas das principais estatuetas.


Era uma vez em hollywood – 10 indicações

Melhor filme, realizador, ator, ator secundário, argumento original, fotografia, guarda-roupa, mistura de som, edição de som, design de produção

Por Giovanni Ramos

Charles Manson é um dos criminosos mais famosos da história dos Estados Unidos. Condenado à prisão perpétua por ser o mandante do assassinato de nove pessoas, ficou detido até 2017, ano em que morreu. Seu caso mais famoso, no entanto, é o assassinato, em 1969, da atriz Sharon Tate, uma estrela em ascensão em Hollywood. Manson era o mentor de um grupo de hippies que foram os executores do assassinato e de quatro amigos que estavam na mesma casa.

O famoso caso da morte de Tate é o pano de fundo da mais recente obra de Quentin Tarantino. O realizador de obras como Pulp Fiction e Inglourious Basterds reconstrói a história de Sharon Tate em Era Uma Vez em Hollywood, vencedor do globo de ouro de melhor filme de comédia ou musical.

Realizador e argumentista, Tarantino coloca o caso Tate de fundo e destaca os personagens fictícios Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um ator de filmes e séries desanimado com a carreira profissional, e Cliff Booth (Brad Pitt), duplo de Dalton que também trabalha como motorista do ator.

Era uma Vez em Hollywood traz as marcas de Tarantino: diálogos bem trabalhados e a banalização da violência, que se torna cómica em diversos momentos. O filme provocou polémicas pela forma em que Sharon Tate, à época esposa do realizador Roman Polanski, é retratada. Outro personagem real que aparece no filme é Bruce Lee, o que também desagradou os familiares do ex-ator pela forma com que ele é retratado.

Era uma Vez em Hollywood está abaixo de Pulp Fiction e Inglourious Basterds, mas ainda sim é um grande filme e pode levar o Oscar de melhor filme pelo conjunto da obra de Tarantino.

 

Pesquisador de media regionais, atua no jornalismo desde 2005. E-mail: web@redevivacidade.com

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