VivArte #17 – Exposição Fabricarte

Exposição de peças do New Hand Lab é o destaque da semana A versatilidade da

VivArte #17 – Exposição Fabricarte
FOTO: Divulgaçâo

Exposição de peças do New Hand Lab é o destaque da semana

A versatilidade da lã, que foi a base da indústria da Covilhá, é o tema central da exposição Fabricarte na Galeria António Lopes. Saiba mais na agenda em vídeo. Nas críticas culturais do VivArte, o vencedor do Óscar de melhor filme, o novo álbum do Green Day e um clássico da literatura portuguesa.

Ver > Parasitas – vencedor do Óscar de melhor filme

Por Isabella Gonçalves*

Ver um filme da Coréia do Sul entre os queridinhos não é facto comum, tampouco quando ele se torna o verdadeiro vencedor do Globo de Ouro e, posteriormente, do Óscar, as duas premiações que poderiam ser consideradas as mais cobiçadas. No último domingo (9), a obra foi premiada com melhor argumento original, direção, filme internacional e, por fim, melhor filme. Mas, afinal, o que fez a crítica gostar tanto? Essa é a pergunta que esta crítica se propõe a responder.

Parasitas tem personagens profundos e que, à sua maneira, geram empatia no espectador, mesmo quando não acertam em suas decisões. Tal como um filme ou um livro sobre um anti-herói, ele adota as mesmas estratégias. Inicialmente, o espectador se vê em uma zona pobre, na qual uma família vive em condições precárias. Já fica claro, em seu início, que os pais e tampouco seus filhos possuem emprego e lutam para sobreviver à maneira que podem. Está aí a apresentação dos personagens. A leveza com que levam a situação causa comoção e o filme já demonstra, nesse momento inicial, que se utiliza da comédia e do drama para dar o tom emocional, combinação que cai muito bem e que é levada adiante durante todo o restante do enredo.

A situação muda, enfim, quando Ki-Woo, um dos filhos, consegue a oportunidade de ser o tutor de uma menina rica. Nesse momento, ele percebe que tal chance poderia não ser apenas dele, mas da sua família como um todo. Pouco a pouco, os familiares conseguem um emprego na casa dos abastados e, nem sempre, da forma mais politicamente correta. Mesmo assim, o espectador se vê torcendo por aquela família, até mesmo quando as decisões se tornam mais drásticas e ainda mais condenáveis, do ponto de vista jurídico e moral.

O filme surpreende o tempo inteiro diante das situações que se desdobram no ecrã. Em meio a tudo isso, diálogos e o carisma dos personagens, na costura da teia, contribuem para prender mais ainda a atenção de quem assiste. Mas, talvez, o ápice do filme seja o seu fim. Logicamente, o Viva Covilhã não dará spoilers, mas pode entregar uma referência. O desfecho é digno de Relatos Selvagens, um filme argentino que foi indicado ao Óscar em 2015, revelando-se, assim, tragicômico, exagerado e um pouco surrealista. Mas, mesmo diante dessa falta de verossimilhança, está aí a graça: a surpresa de quem assiste. Os acontecimentos tiram fôlego, trazem surpresa e prendem o espectador até a última cena. E, mais do que tudo: jamais decepcionam.

*Isabella Gonçalves é estudante de doutoramento em Ciências da Comunicação na Universidade da Beira Interior e participou voluntariamente das críticas do VivArte. Participe você também, envie um email para web@redevivacidade.com com uma crítica de livro, filme ou disco.

Ouvir > Green Day – Father of the all motherfuckers

Por Giovanni Ramos

Passou-se o punck rock dos anos 90, as letras politizadas de American Idiot e as reflexões amorosas que ajudaram a impulsionar o emocore dos anos 2000. O Green Day está de volta com álbum novo e com uma nova pegada no rock.

Father of all motherfuckers, o 13º álbum de estúdio do trio, foi lançado na sexta-feira passada (7). A capa remete ao disco American Idiot com uma mão segurando um coração, só que desta vez com uma pichação em cima. As músicas, porém, possuem um tom mais leve, quase uma releitura do rock and roll dos anos 1950 e 1960.

O ritmo alegre percebe-se nas duas primeiras canções: Father of All… e Fire, Ready, Aim. Mas é na quarta música, Meet me on the Roof, que os anos 50 e 60 aparecem com mais força. É uma balada divertida que lembra muito That Thing You Do!, hit da banda fictícia dos anos 60 The Wonders, do filme Tudo por um sonho.

Até mesmo nas músicas mais pesadas do álbum, Stab You In The Heart, Sugar Youth e Graffitia, o estilo retrô mantém-se evidente. As letras continuam com tons críticos e reflexivos sobre a vida, mas num tom mais alegre que American Idiot, por exemplo.

Com apenas 10 canções em seu disco mais curto na carreira (26 minutos), o Green Day brinca com os 30 anos de carreira em tons de “dane-se” para todos. Disponível nas plataformas de streaming, vale a pena conhecer, é rápido.

Ler > Livro do Desassossego

Por Maurília Gomes

“São as minhas confissões  e, se nelas nada digo, é que nada tenho para dizer”, é assim que Fernando Pessoa (1888-1935) apresenta o Livro do Desassossego, obra publicada em 1982, quarenta e sete anos após sua morte.

Pessoa é certamente um dos maiores autores do século XX. Definia-se como um autor plural. Foi vários poetas ao mesmo tempo e criou personalidades próprias para cada um desses poetas que o habitavam. Não são apenas pseudónimos, mas heterónimos (indivíduos diferentes, com biografias e traços de personalidades específicos).

Criou três identidades distintas para os poetas que acompanharam sua obra criativa: Ricardo Reis (médico), Alberto Caeiro (mestre) e Álvaro de Campos (engenheiro). Mas, o Livro do Desassossego uma obra biográfica é escrita por outra personalidade, Bernardo Soares (um semi-heterónimo), a quem Pessoa dizia que não era poeta. E o próprio Soares afirmava preferir “prosa ao verso”.

A obra reúne mais de 500 textos de Pessoa e apresenta uma verdadeira compilação de escritos. João Gaspar Simões a apelidou de “puzzle literário”. Para Richard Zenith, o Livro do Desassossego “é, e será sempre muitos livros possíveis, sem que possa existir uma edição definitiva”. De minha parte, gostava de acrescentar que este livro é como um labirinto a ser explorado sem pretensões de chegar ao seu fim – até porque o fim aqui não existe.

Diferente de outras obras que abrimos e devoramos, esta é daquelas que lê-se vagarosamente, tirando as camadas uma por uma, percebendo as tentativas do autor em responder questões existenciais, descrever e comentar a realidade a sua volta. Recebi este livro de presente em 2010, e até hoje ainda não li todos os seus textos nem pretendo terminar de ler tão cedo, pois a sensação de novidade a cada leitura é maravilhosa. Uma obra, sem dúvidas, atemporal. E para os fãs de Pessoa, uma obra essencial.

Giovanni Ramos

Pesquisador de media regionais, atua no jornalismo desde 2005. E-mail: web@redevivacidade.com