VivArte #20 – Teatro e personagens femininas

Veja as dicas para o final de semana

VivArte #20 – Teatro e personagens femininas
FOTO: Aline Grupillo

Veja as dicas para o fim de semana

Chegamos à 20ª edição da coluna VivArte! Na genda eletrónica, a sugestão é a peça “Cá estou eu nas nuvens”, em cena no Teatro das Beiras. A história, baseada em um clássico da literatura portuguesa, pode ser vista até o final de março. Nas dicas culturais do que ler/ver/ouvir, uma alusão ao Dia Internacional da Mulher. Divirta-se!!


Ver > The Handmaid’s Tale

Por Giovanni Ramos*

Em um futuro distópico, a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis e a poluição na atmosfera levam à uma queda drástica nos índices de natalidade no mundo, colocando em risco a humanidade. Uma crise desta proporção torna a sociedade uma presa fácil para ideias totalitárias. Nos Estados Unidos, um extremismo teocrático chega ao poder transformando o país na República de Gileade.

Na República de Gileade, as mulheres tornam-se objetos dos homens a partir de interpretações distorcidas dos ensinamentos bíblicos. Elas perdem toda a liberdade e as férteis são entregues ao Estado, onde passam a ser aias, sua única função passa a ser a reprodução.

É neste cenário que se encontra a protagonista. June Osborne (Elisabeth Moss) tentou fugir dos Estados Unidos antes do país tornar-se a República de Gileade, mas ela foi pega pelos novos governantes e transformada em uma aia.

Primeira série produzida para a internet (Hulu) a vencer o Emmy, à frente de todas as produções da concorrente Netflix, The Handmaid’s Tale é uma série essencial nos dias de hoje. A ficção, baseada em um romance da escritora canadiana Margaret Atwood, é um alerta para o que muitos governantes e novas lideranças propõe em todo o mundo, com visões reacionárias e teocráticas, que têm como alvo a liberdade dos cidadãos, essencialmente de mulheres e minorias.


Ouvir > The Runaways

Por Giovanni Ramos*

Apesar de possuir grandes estrelas mulheres, o mundo do rock continua a ser predominado por homens. São poucos os grupos compostos somente por mulheres que alcançaram a fama. Por isso, a vanguarda de Sandy West e Joan Jett deve ser ressaltada. As duas americanas são as fundadoras do The Runaways, a primeira banda de rock da história formada somente por mulheres.

Criada em 1975, a formação do The Runaways durou até 1979 com quatro álbuns lançados, que variam entre o Rock and Roll clássico e o punk rock, que dava seus primeiros passos na época.

Apesar do curto tempo de duração, a banda marcou época não apenas por quebrar o monopólio masculino no rock and roll, mas pela presença de palco do grupo que, rapidamente, chegou às paradas de sucesso, com apresentações em todo o mundo.

Desentedimentos por diversos motivos levaram ao fim da banda em 1979, mas a maioria das integrantes continou no mundo da música, com destaque para Joan Jett, que continua na ativa, em carreira solo, sendo a ex- Runaways de maior sucesso.

A história do grupo foi retratada no cinema, com um filme de nome homônimo lançado em 2010.

Ler > A guerra não tem rosto de mulher – Svetlana Alexijevich

Por Maurília Gomes**

A dica desta semana em que lembramos o Dia Internacional da Mulher não poderia ser outra: Svetlana Aleksiévitch, jornalista e escritora que possui grande sensibilidade e um estilo de escrita inovador.

“A guerra ‘feminina’ tem suas próprias cores, cheiros, sua iluminação e seu espaço sentimental. Suas próprias palavras. Nela, não há heróis nem façanhas incríveis, há apenas pessoas ocupadas com uma tarefa desumana”. É assim que a autora bielorrussa apresenta sua obra A Guerra Não Tem Rosto de Mulher.

A partir de uma verdadeira polifonia, somos levados para além do campo da batalha, com corpos despedaçados e sangue ou as estratégias dos comandantes. Neste livro, a autora optou por utilizar relatos de mulheres que vivenciaram a Segunda Guerra Mundial. Aleksiévitch ouviu dezenas de mulheres em seus lares, “entre chás e biscoitos”, como a escritora faz questão de ressaltar. “Não estou escrevendo sobre guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não estou escrevendo sobre a história de uma guerra, mas a história dos sentimentos. Sou uma historiadora da alma”, diz a autora numa tentativa de auto-definição.

O livro traz olhares femininos de diferentes frentes, não são histórias limitadas apenas às enfermarias, como tornou-se comum neste tipo de literatura. Os relatos que compõem o livro são de mulheres que lutaram no front: “atiradoras de metralhadoras, comandante de canhão antiaéreo…” Mulheres que lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial e que tiveram suas vozes silenciadas por décadas.

Por meio de memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a sombra onipresente da morte, a autora constrói uma narrativa angustiante e arrebatadora. “Por seus escritos polifônicos, um monumento ao sofrimento e à coragem  em nosso tempo”, a Academia Sueca condecorou Svetlana Aleksiévitch, com o Nobel de Literatura em 2015. Dizer mais o quê, não é mesmo?


* Giovanni Ramos é jornalista brasileiro, consultor de comunicação digital e investigador de jornalismo local.
** Maurília Gomes é relações públicas e consultora de comunicação.

Giovanni Ramos

Pesquisador de media regionais, atua no jornalismo desde 2005. E-mail: web@redevivacidade.com